6 de fevereiro de 2009
Dia de Chuva
Cada gota que cai
inunda de verbo
as minhas veias.
Cada mínima palavra
que escrevo encharca
o papel de vontades.
Cada vontade suprida
eu refaço e redesenho
e a torno borrão.
Cada borrrão
que eu marco
se faz cor.
Cada cor
que eu pinto
se faz som.
Cada som
que eu emito
se faz gota.
É chuva!
(Poá-SP, Fevereiro de 2009)
23 de janeiro de 2009
Relatividade
Em um fim de tarde
tentando repor
tantas noites perdidas de sono.
Em uma só hora
tentando repor
tantos dias perdidos de escrita.
Em uma manhã
tentando refazer
tantos sonhos que talvez eu nunca tive.
Em um só minuto
tentando recontar
tantas tentativas do que eu não fiz.
O tempo é relativo...
foi contando ele
que eu fiquei desorientada.
(Poá-SP, Janeiro de 2009)
Aos pedaços
Escrevi um verso
numa gota d'água.
Quando choveu no dia seguinte
eu enjoei de ouvir o verso.
Escrevi uma estrofe
numa onda.
Quando chegou a ressaca do mar
eu enjoei de ouvir a estrofe.
Escrevi uma palavra
em cada veio da cascata.
Quando mergulhei no rio
o que eu ouvi finalmente parecia poesia.
(Poá-SP, Dezembro de 2008)
3 de abril de 2008
Ode a um maldito
Enfim passaste a me ignorar!
Ouves minha voz,
e não me falas.
Me vês passar em redor, mas não te atentas.
Enfim te aquietas sem que eu rogue o teu silêncio!
Ralhe, pragueje e culpe
a quem e o que bem entender
que a tua glória não terá meu nome!
Falaz... mentiroso e grande falaz
é tudo o que és.
Já conheci tua falácia,
já vi tuas palavras torpes,
já verifiquei tua prosa distorcida;
agora sei, e fiz por merecer,
decerto agora tens bons motivos
pra usar de metiras e invencionices...
terás de mentira agora
pra manter tua imagem!
Vives a noite, e não a dormes.
Começas a dormir somente
quando eu estou já quase a acordar
e ainda ficas a ralhar meu sono.
Pois sem mais! Infame e maldito,
sem mais! Findou-se a festa!
Faça como bem quiseres longe de mim,
deixa então a noite te levar em vigília,
afastado de mim enfim podes
curtir a morbidez de tua febre e teus delírios do sono
ao longo do dia, enquanto eu vivo!
Culpe a quem e ao que bem quiserdes,
diga o que bem entenderes, infame filósofo...
Não me venhas culpar a mim apenas.
Sei bem o que fiz, e o que tu fizestes.
Fizeste merecer, e muito...
Num sofá, numa brincadeira, mas
logo a brincadeira tornou-se martírio,
martírio perdido entre lençóis e noites maldormidas.
Pois digo eu, já que por ti mesmo não falas:
foste tu o culpado pelo fim! apenas tu!
Cavaste tua própria cova,
assinaste em vida o teu obituário,
tu mesmo levaste à morte
todo o sentimento positivo antes latente!
Fiz merecer por fim tua falácia.
Agora fiz merecer tuas mentiras.
Mas não me aflijo com teu falar torpe!
Fala filósofo, fala infame,
fala com bem quiseres,
pra esconder tua miséria.
Apenas não tente reavivar
o que já está morto e apodrecendo...
Já te fiz passar e sentir
acho que tudo ou quase o todo
que me fizeste passar e sentir;
o sentimento, antes terno, se foi e morreu;
agora podes ir-te embora duma vez!
Se ainda pensas em retorno...
triste e tolo engano!
Que tenham os Deuses piedade em te tratar,
que eu já não me apiedo mais de ti.
Não fiques ingênuo a pensar
e a tentar alcançar
idéia qualquer que seja do que eu quero,
possibilidade do que eu pretendo...
vindo de ti, eu quero nada!
Me falaste de Sade,
me perguntaste se algum conheci...
se prefiro um Masoch,
decerto um Sade não quero!
Não deixaste que eu me fizesse ingênua
em momento qualquer que fosse,
nem possibilitou protelação,
insististe pra que não houvesse chance alguma
de adiamento de nada...
pois te arrasta agora,
se ainda queres te lembrar de algo
a mim já pouco importa!
Maldito filósofo, infame!
Lamenta e te arrasta
como o perfeito verme que és,
verme infame, maldito!
Lamenta, se queres, te lamenta...
que de ti nada mais quero,
vá-te de minha vida filósofo maldito!
Vá-te, e ame então
a noite e a tua querida Filosofia
que são elas apenas
que não te podem negar ser amantes!
(CRUSP, Cidade Universitária - São Paulo, Novembro de 2007)
Em incertezas...
Quem tem certeza de que existe o deus que é homem, ou é mulher, ou que são dois, ou dezenas, ou um só, ou milhares?
Que certeza você tem de que por aqui ainda vão se passar milhões de anos, ou centenas, ou que esse é o último ano de toda a existência em absoluto?
O poeta Horácio era mesmo um maluco, ah se era! Imagina, pra quê? pra quê correr contra o tempo, como se tivesse um machado acima da cabeça, que pudesse te dar fim a qualquer momento? Tem que ser muito maluco pra pensar assim... mas ser poeta não é ser um pensador maluco?
Que certeza você tem do amanhã?
Que certeza você tinha ontem sobre o seu hoje?
O que te garante que o seu hoje tem um amanhã?
O hoje pode ser o seu ontem. E o seu amanhã pode ser hoje! O quê te garante a verdade?
Você diz que tem certeza que um dia tudo vai melhorar.
Você, ah é! você diz que com certeza vai ter jeito na semana que vem, no mês que vem, no ano que vem talvez... A única certeza pra mim, pra você, pra todos, é a morte!
O quê você fez como o seu ontem?
O que você está fazendo com o seu hoje?
Você tem grandes planos para o futuro?
O quê te garante quando vai acabar o quê ainda não acabou? Quem pode dizer o tempo do fim, ou o fim do tempo?
O seu amanhã é hoje, porque pra você pode não ter amanhã.
O seu hoje é ontem, porque você ainda não se mexeu.
Por que você está aí sentado? Está ganhando o quê parado? O quê você ganha esperando?
Por que você não sai do seu cantinho confortável pra fazer alguma coisa?
Enquanto você fica parado esperando o futuro chegar, o futuro chegou e já se desfez! Enquanto você ficou estacionado o tempo te ultrapassou e o mundo correu e te atropelou!
Aproveita o aqui e o agora, deixa o futuro pro sonhador que não vê o tempo passando e que acha que o melhor vai chegar no amanhã que não se sabe quando vai ser!
Não espere uma outra pessoa o que você podia, bem que podia fazer hoje!
Porque tudo nasce para a morte; o que vive parado, aquele que agora vive parado já está morto, e o que viveu parado morreu sem existir!
(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Novembro de 2006)
24 de março de 2008
O Concreto #2
Que dirá o maldito
no meu luto
viaduto de ilusões que
me cercam e me cobrem e
engolem a nação-mundo
que dirá o bastardo do mundo
no esquecido do não dito
quem esquece e não
se apressa pra fazer tudo
tudo aquilo que foi dito
de uma boca
dum maldito de não dito
que não lembra o que disse que
foi dito para os outros
que hoje olham o viaduto
sem carro ônibus bicicleta
os cobriu o viaduto
viaduto vida e casa
que de casa não tem nada
os que tem vida no
viaduto de noite cobertos
no viaduto debaixo
do viaduto
da guerra fome morte miséria
que a ilusão dos
filhos-bastardos-do-mundo criaram
colocou pros filhos-da-miséria
a ilusão que não existe
guerra-fome-morte-miséria
pra além do que conhecem
ou que só existe
pra além do que eles conhecem
miséria que só é minha
miséria que não é minha
miséria que não é de ninguém
mas que é de todo mundo
miséria pra todo (o) mundo.
(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)
O Concreto #1
Luxo-lixo-luxo
se não tem lixo não tem
luxo não tem lixo
precisa de lixo pra ter luxo
pra ter lixo tem o luxo
pra mais luxo vai mais lixo vai
mais lixo pra mais luxo que
só cresce quando o lixo cresce
mais luxo mais lixo mais
luxo do lixo que
vem dos que não tem luxo
os que tem mandam mais lixo
pra miséria do lixo do
mundo gente-lixo-luxo-lixo
para o luxo-gente-lixo.
(Trem Expresso Leste da CPTM, São Paulo, Outubro de 2006)
Crise de consciência
Algum grande problema existe. Alguma confusão muito grande aconteceu. Tem alguma coisa que está muito errada. Tem algo que está realmente fora do lugar. A incerteza não quer mais dar mais nenhum espaço para as certezas.
A verdade não tem mais força. As verdades perderam o sentido. A sinceridade perdeu toda a sua razão de ser. Mentir parece ter mais significado. As mentiras parecem fazer mais sentido. A mentira parece ser mais compreensível e aceitável. Eu já não entendo mais nada. Já não sei como me fazer entender. Não sei mais quando falar ou não, como falar ou não, o que falar ou não. O óbvio perdeu a lógica. A lógica nunca mais foi, nunca mais será óbvia, não é mais pressuposta, deixou de ser subentendida.
Eu não tenho pressa, mas também não sei mais esperar. Não sei o que fazer, mas também não consigo refletir e premeditar o que fazer. Não consigo ficar parada, mas também não sei em que direção ir. Estou em constante dúvida, e ao mesmo tempo minha mente está em branco, com um imenso e desesperador vazio. Quero reagir, mas não me arrisco a agir em falso.
Quando eu quis parar e refletir, todos preferiam agir pra repensar depois. Quando eu quis agir, todos acharam que era necessário mais algumas horas pensando. Quando eu ouvi e compreendi, repetiram e insistiam várias vezes, mas quando eu não ouvi, ninguém quis pensar em porque eu não entendi. Contrariei em guardar o que queriam expor, tentaram esconder tudo aquilo que eu quis mostrar. Teimei em não concordar e aceitar passiva e integralmente o que ainda desconhecia, e insistiram em tentar me convencer que eram verdades as mentiras que eu já conhecia bem. A latente polarização e o constante avesso estão começando a me cansar.
Eu não consigo entender o porquê de mentir sobre o que você nunca concordou nem aceitou. Ninguém quis entender porquê eu não consegui mentir enquanto mentiam pra mim. Não consigo entender porque tantos tacharam a minha sinceridade de mentira, e depois que menti acharam que enfim fui sincera. Não entendo como as outras pessoas conseguem encontrar na falsidade uma realidade mais plausível e verdadeira do que na sinceridade. Tamanha constância na contrariedade também está me cansando.
Eu me sinto errada. Sinto o mundo que me rodeia como errado. Não sei se sou uma cotia, um quati, um guaxinim, uma onça, uma jaguatirica... parece que sou uma pessoa por fora, um ser humano, porém por dentro sendo qualquer outro tipo de bicho, algum outro animal que haveria de ter nascido desprovido do dom da fala e de cordas vocais.
(Cidade Universitária, São Paulo, Outubro de 2007)
14 de março de 2008
Negação literária
Diga o que quiser
condene o quanto puder
que dos mortos estou farta!
Ralhe e condene,
maldiga a mulher
que decerto mal sabe
dizer o Português de rebuscos,
quanto mais fazer prosa e verso em Inglês!
Pois largue,
largue de uma vez,
largue de dar atenção
a uma mulher tão infame!
Pegue Foucault, Flaubert, Kafka, Balzac,
Calvino, Maupassant, Henry James, Anne Rice,
pegue e leve-os embora contigo!
Quero a prosa e a poesia
de fundo de quintal,
quero a literatura dos vivos!
Pois deixe de dar atenção
a uma mulher tão infame,
de versos fracos,
isenta de norte,
que é incapaz de extravasar
sua agressividade através de palavras!
Com tantos bons escritores
- escritores jovens e vivos
de que vale essa mulher?
Pois estou farta dos mortos!
De tudo que eu quero,
antes quero
uma literatura que não
seja morta!
Deixe, deixe de lado,
deixe de dar atenção
a uma mulher tão infame,
que não sabe o
que é literatura,
quanto mais fazer versos...
essa mulher não é literata!
Como pode um ser humano
em sã consciência
ignorar os clássicos?
Não me fale,
não comente, não me lembre,
eu não quero os versos de Camões!
Pare de citar os mortos,
não me fale de Horácio,
nem de Homero, Catulo ou Safo!
Às favas com os clássicos!
De tudo que eu quero,
antes quero uma
literatura viva!
(CRUSP, Cidade Universitária - São Paulo, Novembro de 2007)



